"Você vive só?"... "Em que sentido?"... "Vive só?"... "Moro sozinha, mas vivo cercada de gente".
Mas talvez viva, somente. Aquela introspecção num olhar que fita, ela pode ser culpa da miopia. Uns graus a menos e pronto, lá se foi uma vida sem enxergar com quem. Confiança cega, fé amolada. Umas estrelinhas piscando feito rabiscos na frente dos olhos cansados. Eles são castanhos, sabe? Vivem negros, mas são castanhos. Ligeiramente vesgos para dentro, mas tão ligeiramente que nem se nota. Tristeza é um pouco assim, abuso de confiança cega. Um perigo mexer com fé amolada, cortante de lâmina a ponto de fazer quaisquer um chorar de dor. E ver umas estrelinhas essas diferentes daquelas rabiscadas, mais pontudas, feito garras, no interior dos olhos. Ou talvez grãos de areia e sal e todos os microorganismos da praia. Essas pequenas e incômodas substâncias que nos impedem de ver com precisão. Tem dó dos meus olhos castanhos disfarçados de negro. Das lágrimas que correm para dentro, bloqueiam o respirar e criam a fragilidade asmática da ausência presente. E por favor, não queira me dar abraços ou beijos na testa, cuidar de mim, um perigo isso tudo, navalha afiada disfarçada de lenço, num par de olhos e lágrimas. Castanhos disfarçados de negros, que sejam, com perigosa tendência a acreditar na ficção.
Confiança cega que seja, segue guiada pelo cão da fé. Às vezes o pobre também ele se perde, pisa nos cacos de vidro da rua. Acho que foi naquela esquina em que nos cruzamos uma vez, aquela onde nos encontramos e deixamos perder novamente. Você sangrou, eu vi, foi um corte profundo. Meu cão-guia chegou a lamber o corte, ele também com as patas cortadas pelo vidro. Talvez eu também estivesse sangrando, mas mal pude perceber, pois só via as estrelas. As outras pessoas, elas não se cortaram como nós. Acho que foi assim.
Sobre nos casarmos na sua próxima reencadernação, a resposta é sim. Desde que estejamos vivos e sós.