среда, Октябрь 11, 2006

Mutação de Amaralina

Rosastrela estava na terra quando viu os primeiros sinais de sua irmã Amaralina desabando feito flecha de centauro. Ela passara muitas luas pregada ao veludo azul-escuro da noite, desde que fôra engolida por um peixe, e desde então as órbitas globulares de Rosastrela a refletiam junto com os outros pontinhos luminosos e incandescentes, num turbilhão de brilhares que contavam histórias a anos-luz de acontecidas. Mas agora, o reflexo era de uma lâmina de fogo que desabava veloz, cortando os céus ao meio. Rosastrela sabia que algo importante estava por vir. Amaralina caiu no chão e virou bicho outra vez. Não para se embrenhar feito minhoca na terra molhada, como antes, mas agora como criatura selvagem, desabrochada sob a sombra das árvores frondosas. Ali na terra, dormiu o sono dos dias de espera. Aguardava o desconhecido que, sem sombra de dúvidas ou de árvores, viria ao seu encontro.

четверг, Октябрь 05, 2006

Um certo Martin Martinez

Martin Martinez é da estirpe asiática da Martinica. Há quem jure que seus antepassados foram os primeiros japoneses - ou melhor, ainus - a cruzar o estreito de Bering. Os guerreiros, habitantes de zonas glaciais, teriam ouvido dos russos, com quem dividiam o mundo, histórias fantásticas sobre terras quentes do outro lado do mundo, de onde soprava um vento de aragem. Movidos pela curiosidade, alguns foram para lá. Uma segunda versão dessa história é de que os ancestrais de Martin teriam chegado num cargueiro de chineses para povoar la isla de Cuba. Frente à realidade cruel do trabalho servil, decidiram fugir para a Martinica. Foi nesta terra que os primeiros americanizados da família se rebatizaram "Martinez". Martin não é o primeiro Martin dessa linhagem. Trata-se de um nome recorrente aos homens da família. O que ele tem de especial, além do sorriso vivo e uma chama brilhante no fundo dos olhos, são as borboletas no estômago que o colocam na disposição de quem dança o tempo todo, até mesmo enquanto anda, como se seus passos fossem mais bonitos que os dos outros homens da terra. Martin é o mais bonito dentre seus vários irmãos, um verdadeiro encanto para as moças. Com seu talento inato para os ritmos do cosmos, também ele entrou na tenda do xamã ainda menino. Quando recebeu em suas mãos a pedra preta do guanaco que percorre gerações entre americanos desde a Patagônia, entendeu que seu destino era o de bailar para vivir. Foi seu rito de iniciação, quando o velho xamã também o aconselhou a buscar seu destino bastante lejos del pueblo. O sábio falava de cidades de pedra e uma língua desconhecida. Era nesse sítio que encontraria seu próprio guanaco, a criatura ferina com quem se debateria a fim de remover uma pedra sua, a ser acrescida ao totem da família. Somente com sua pedra pessoal ali, poderia descansar o espírito nos dias após o passamento. A pedra, previu o xamã, seria amarelo-âmbar, contendo a energia das estrelas. Amaralina era seu nome. Assim, com o projeto de encontrar Amaralina, Martin deixou a casa do xamã já homem feito. E assim partiu num barco semelhante àquele dos chineses, rumo ao Sul.

понедельник, Октябрь 02, 2006

Caderno de campo nº 01

Meio sem pé nem cabeça este lugar, onde tudo parece fora do lugar. Foi ali que perdi minha cabeça, que atualmente vaga fora do lugar, em estado órbita acelerada. Mais ou menos estado de atenção, um encontro com o imprevisível batendo à porta. Um plaqueiro peruano na República, um prédio da década de 50, um tanto corroído, uma salinha sem janelas, com cortinas de gosto duvidoso. Um leitor de Villas-Boas fala de seu desejo de viver entre os índios. Seu amigo "mineirinho" tem os olhos esbugalhados de 20 graus de miopia. Aposentado por invalidez, mas feliz. Ele diz que estamos todos pegando fogo. Na rua, a plaqueira sexagenária de cabelos vermelho-fogo também fala de amor e choro. Seu amigo também aposentado e homem-placa tem um apartamento nos Jardins. E um homenzinho judeu-placa nos explica como identificar ouro roubado. Ele matou um homem, com uma pistola "menor que um 38" e passou três anos no Carandiru. Por isso o túmulo tatuado no braço. Sem os dentes da frente, o homem tem as unhas esmaltadas. "Joguei o corpo no quintal. Ele entrou na minha casa para roubar". Duas camadas de esmalte branco, reforça. "Só mulheres cuidam do meu corpo". A mãe faleceu quando ele tinha três anos e meio. O pai colocou uma prostitura em casa. "Ela conseguia dormir com 16 homens numa tarde, mas cuidar de oito crianças não conseguia". Os meninos bolivianos cantam na calçada e se comportam como verdadeiros artistas, para orgulho do pai. Disputam o espaço aéreo congestionado com o som das Casas Bahia. Uma menina sem pai nem mãe canta e dança os tais sucessos do brega em seu show particular. No mesmo embalo, muitos perdem dinheiro nas apostas para derrubar garrafas. Meio sem pé nem cabeça este lugar. Nada é o que parece. No dia seguinte, nos dizem que a realidade é ficção. Ou vice-versa. Eu olho para você, você sorri. E vivendo de realidade ou ilusão, tenho a certeza de estar feliz.

вторник, Сентябрь 19, 2006

A joke

[sent by Weltbummler]

A man dies and goes to hell. There he discovers that he has a choice: he can go to capitalist hell or to communist hell. Naturally, he wants to compare the two, so he goes over to capitalist hell. There outside the door is the devil, who looks a bit like Ronald Reagan. "What's it like in there?" asks the visitor. "Well," the devil replies, "in capitalist hell, they flay you alive, then they boil you in oil and then they cut you up into small pieces with sharp knives."

"That's terrible!" he gasps. "I'm going to check out communist hell!" He goes over to communist hell, where he discovers a huge queue of people waiting to get in. He waits in line. Eventually he gets to the front and there at the door to communist hell is a little old man who looks a bit like Karl Marx. "I'm still in the free world, Karl," he says, "and before I come in, I want to know what it's like in there."

"In communist hell," says Marx impatiently, "they flay you alive, then they boil you in oil, and then they cut you up into small pieces with sharp knives."

"But… but that's the same as capitalist hell!" protests the visitor, "Why such a long queue?"

"Well," sighs Marx, "Sometimes we're out of oil, sometimes we don't have knives, sometimes no hot water…"

понедельник, Сентябрь 18, 2006

Rim-coração

Amor em chinês é rim-coração. Tem a ver com a circulação do sangue. Não sei se o problema é o rim ou o coração. Ou o sangue em si. Se fosse o fígado, talvez os bêbados deixassem de amar com o passar do tempo. Só sei que o fato de seu coração poder diminuir de tamanho até virar um grão de feijão é para mim algo assustador. Uma panela de pressão, cozinhando aquele feijão para torcer em panos quentes e transformar em pasta doce de gosto duvidoso. Açúcar não é muito sua cara. Não por ser diabético como o velho do templo, apenas por não gostar de doce ou calmaria. A seu lado, às vezes sinto-me velha, enorme, pesada, com meu apreço por doces e vontade de tomar algumas xícaras a.mais de chá de jasmim. Não sei se isso passa, não sei se fizemos mal. Se o faremos. Apenas tenho rins e um coração que talvez não funcionem de modo equilibrado e uma necessidade de ver o tempo passar mais equilibrado, sem o exagero da perfeição. Sou imperfeita. Com dois rins que talvez não funcionem e um coração descompassado. Com tomadas quebradas, lâmpadas queimadas, fios que ligam nada a lugar algum e sem conserto. E como esse emaranhado de fios soldados pelo maçarico de um porteiro e eletricista diletante, ainda não sei aonde vou parar. Mas não desejo machucar ninguém.

четверг, Сентябрь 14, 2006

Cacos, cortes e estrelas

"Você vive só?"... "Em que sentido?"... "Vive só?"... "Moro sozinha, mas vivo cercada de gente".

Mas talvez viva, somente. Aquela introspecção num olhar que fita, ela pode ser culpa da miopia. Uns graus a menos e pronto, lá se foi uma vida sem enxergar com quem. Confiança cega, fé amolada. Umas estrelinhas piscando feito rabiscos na frente dos olhos cansados. Eles são castanhos, sabe? Vivem negros, mas são castanhos. Ligeiramente vesgos para dentro, mas tão ligeiramente que nem se nota. Tristeza é um pouco assim, abuso de confiança cega. Um perigo mexer com fé amolada, cortante de lâmina a ponto de fazer quaisquer um chorar de dor. E ver umas estrelinhas essas diferentes daquelas rabiscadas, mais pontudas, feito garras, no interior dos olhos. Ou talvez grãos de areia e sal e todos os microorganismos da praia. Essas pequenas e incômodas substâncias que nos impedem de ver com precisão. Tem dó dos meus olhos castanhos disfarçados de negro. Das lágrimas que correm para dentro, bloqueiam o respirar e criam a fragilidade asmática da ausência presente. E por favor, não queira me dar abraços ou beijos na testa, cuidar de mim, um perigo isso tudo, navalha afiada disfarçada de lenço, num par de olhos e lágrimas. Castanhos disfarçados de negros, que sejam, com perigosa tendência a acreditar na ficção.

Confiança cega que seja, segue guiada pelo cão da fé. Às vezes o pobre também ele se perde, pisa nos cacos de vidro da rua. Acho que foi naquela esquina em que nos cruzamos uma vez, aquela onde nos encontramos e deixamos perder novamente. Você sangrou, eu vi, foi um corte profundo. Meu cão-guia chegou a lamber o corte, ele também com as patas cortadas pelo vidro. Talvez eu também estivesse sangrando, mas mal pude perceber, pois só via as estrelas. As outras pessoas, elas não se cortaram como nós. Acho que foi assim.

Sobre nos casarmos na sua próxima reencadernação, a resposta é sim. Desde que estejamos vivos e sós.

суббота, Сентябрь 02, 2006

Uma musica

Assum branco
[José Miguel Wisnik]

Quando ouvi o teu cantar
Me lembrei nem sei do quê
Me senti tão só
Tão feliz tão só
Só e junto de você

Pois o só do meu sofrer
Bateu asas e voou
Para um lugar
Onde o teu cantar
Foi levando e me levou

E onde a graça de viver
Como a chuva no sertão
Fez que onde for
Lá se encontre a flor
Que só há no coração

Que só há no bem-querer
E na negra escuridão
Assum preto foi
Asa branca dói
Muito além da solidão