суббота, Июль 08, 2006

Alem do olhar

Dizem que a imagem é verdade; outros, que é imaginação. Não fossem os olhos, poder-se-ia dizer da imagem 100% inventada. Mas tal qual se revela, não perde os ares de invenção. Para nós, efêmeros corpos num recorte de tempo e espaço, não há resposta para a distância entre um ser e sua(s) imagem(ns) que não uma idéia na cabeça - outra imagem qualquer. Se minha ou sua imagem não sei, mas a tenho projetada no fundo do cérebro feito sombra na parede. Imagem-sombra que cobre, sem ocultar; que protege do sol e traz um refresco de frio no calor ou um alento de humano sob a luz artificial da lamparina acesa da noite. Imagem-sombra fria que aquece, candente, tão minha essa sua frieza de sombra com que me relaciono quando emudeço os tons brilhantes do iluminado solar ou artificial em pensamento. Aceito para mim a sombra que enxergo, o borrão míope ou aquele embaçado pelas lentes vaporizadas de mormaço. Imagem-sombra, não sei se minha ou sua, se realidade ou invenção, me toma "como se tivesse amor no corpo", tão viva quanto representação. Imagem-sombra de imagem, pedaço entre mim e você, placenta de transcendência humana, gestação da existência, tempo puro da vida e seu fim. Imagem-sombra, cristal de não-ser aprisionado, para sempre, tão duradoura quanto a finitude, limite da vida, da memória, do corpo fustigado de recordações, aficcionado, faminto de imaginação e para sempre ele próprio cativo da imagem que de modo egoísta guardou para si, ele próprio imagem capturada do outro, para o outro, com o outro, no outro, lá para dentro, propriedade de algo que não conseguiu capturar para si, senão com uma imagem. Imagem-sombra, imanência transitória, breve eternidade em pílulas de contemplação, imagem beleza em forma pura, olfativa, tátil, sonora, adocicada, amarga, azeda, salgada, colorida, brilhante, opaca, translúcida, transparente. Um punhado de sais de prata gravados para sempre, um par de olhos azuis - ou verdes? - em branco e preto na memória.