пятница, Июль 14, 2006

A flor amarela

A angústia nascia feito flor amarela na mais completa e absoluta falta do que fazer. Uma cabeça em atividade intensiva das idéias, algumas meio descabidas, outras meio absurdas, umas poucas sensatas e algumas com jeito de promissoras. As idéias noturnas em turbilhão, um corpo fervendo de energia, as células reproduzindo-se e renovando-se, os nervos, músculos, tendões remexendo, os hormônios ao ponto. De dia, as caminhadas em passos rápidos, estressados, em conflito com as pessoas da contramão. Os pés já machucados da aula de dança, à exaustão, o calor gelado do inverno sem frio, os movimentos vertiginosos acompanhando a angústia. Estresse crescente de centro urbano. Tantos lugares para ir quanto limites do mundo, da cidade, do bolso, da violência crescente, dos ombros tensionados, das idéias descabidas. Das tarefas a cumprir, umas poucas esparsas e mecânicas no marasmo julino, nas férias sem férias, na preguiça de meio de ano. Um conjunto de ataques explodindo na rua, na nossa frente, nos ônibus que costumamos tomar. Angústia generalizada, como flores amarelas brotando nas calçadas, como jardins assustados, irradiando seus sinais aos quatro cantos, na rede carregada de eletricidade e tensão estática, pairando sobre a atmosfera já poluída, tornando os dias quase imprevisíveis, não fosse em si o amarelo-medo de angústia em flores brotando em todos os corpos no concreto. O medo certo, como fio de navalha, causando o vazio das ruas e o fim dos circulantes, o boato-medo com doses de verdade e a tentativa de continuar vivendo a rotina. Incômodo permanente, a falta do que fazer e o tempo que passa.