A carta derradeira
Não meu bem... Quando arrebentou a mi, transpus os agudos para a la, a ré, a sol. Agora sem cordas para estourar, sem um sonido sequer que desperte comoção, sem uma palavra a dizer e já flutuando na superfície daquela piscina, respirando novamente um pouco de oxigênio, me chega a consciência aqui de que suas cordas também romperam. Somos como surdos em conversação para o outro. E cá mirando a você como quem olha para um morto. Vivendo um passado que já nem sei mais se aconteceu. Investigando papéis velhos num arquivo qualquer, exposta àquela poeira pairando solta, carregada de tuberculose. Nossas cordas arrebentaram, e cá estou feito vaca balinesa diante de uma orquestra gamelã. Mas acabou. O tempo passa rápido demais, somos vividos e ainda tenho o projeto de chegar ao céu. Despeço-me assim, com umas pedras no bolso e caminhos pelo chão. Mas vê se dorme, que já é tarde e tenho certeza que amanhã você vai estar ocupado demais. Adeus.
