воскресенье, Август 13, 2006

Da repulsa

Ouviu pela última vez novamente o mesmo discurso. Pela última vez novamente se convenceu que não lhe cabia julgar se o interlocutor dizia a verdade. Ele estava dizendo e isso bastava. Pela última vez novamente desviou olhar ao responder. Pela eultima vez novamente sentiu um tremor no corpo inteiro e desabou em lágrimas. Pela última vez novamente sentiu intenso desprezo por aquele que lhe inquiria. A violência do que podia ser mentira e verdade açoitava suas mais profundas lembranças, marcadas uma a uma como cortes abertos, ardentes como o vermelho que ele afirmava estar em seu rosto. Desta vez, como da última vez, novamente havia algo distinto. O limite, sintetizado na palavra possível, "eu não consigo mais" entre o meneio de cabeça e a respiração aflitiva. A violência vestida novamente a exemplo das últimas vezes pela excessiva falta de consideração. Tortura simbólica, indireta, maquiavélica. Era inteligente, o diabo. Fazia jogar com a generosidade alheia, retorcer os sentimentos, evocando-os como se fossem mentiras - ou verdades -, como se fosse ele a autoridade de todos os destinos e pensamentos, decidindo pelos dois que a escravidão era a melhor opção. Acreditando que pudesse sair incólume de todos os desvios presenciados por todas as mulheres que já se tinham debatido contra a tirania. Ouviu pela última vez novamente o mesmo discurso. Mas era como se pela primeira vez não ouvisse. Somente o Capricho 24 ecoando para dentro com seus sinais de repetição jamais repetida. Não foi a última vez novamente, mas a única vez, primeiramente. Não lhe cabia julgar se verdade ou mentira, se capricho ou grandiloqüência, se sim ou se não. Apenas assinar a condenação e ir embora. Sem mais golpes de faca ou misericórdia. Saiu, deixando-o feito rato na calçada, com seus ares de sobriedade a despeito da repulsa generalizada de tudo que era humano e digno no entorno. Corroída pelo desprezo que nunca se havia permitido sentir pela primeira e dolorosamente última vez.